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O que mais surpreende na discussão sobre a contratação de treinadores estrangeiros pelos clubes brasileiros, a partir da chegada de Rueda ao Flamengo, é que ela tenha surgido não a partir de declarações de um dos velhos tubarões do futebol brasileiro, mas de Jair Ventura, um dos representantes da nova geração de técnicos que buscam seu espaço, estudam e trabalham para quebrar a estagnação – tirar o mofo – que nas últimas décadas se abateu sobre a profissão no Brasil.

É uma visão míope, protecionista, baseada em meias-verdades, argumentos que não resistem sequer a uma análise rasteira.

“Não que eu seja contra os estrangeiros trabalharem aqui, mas estamos perdendo mercado lá fora. Daqui a pouco, perdemos o interno. Então do que adianta se preparar, estudar?”, questionou o treinador botafoguense. Este ó o primeiro ponto: os treinadores brasileiros não estão perdendo mercado. Nunca conquistaram o mercado externo de forma consistente. São raríssimos os casos bem sucedidos. Didi, que levou o Peru à Copa de 70, Parreira e suas incursões pelo Oriente Médio e a África, Renê Simões na América Central. Agora Felipão, na China, Nelsinho Baptista, no Japão, onde aliás acaba de ser dispensado. Todos no mundo periférico da bola, como se vê.

Vanderlei Luxemburgo, que saiu em defesa de Ventura, é o exemplo clássico das dificuldades dos treinadores brazucas. Sua passagem pelo Real Madrid durou pouco, menos de um ano e apenas 45 jogos, num time que reunia uma constelação de craques como Raúl, Roberto Carlos, Ronaldo, Beckham, Figo e Zidane, entre outros. Luxa esbarrou na língua – não conseguia se comunicar fluentemente com os jogadores, mesmo nos últimos dias de Espanha. Mas, mais do que isso, não se adaptou à cultura europeia e tentou combate-la, impondo longas concentrações, treinos em dois períodos e técnicas consideradas ultrapassadas de preparação. Há quem diga que uma caixa de areia colocada ao lado do campo do CT para exercícios físicos virou motivo de chacota entre os galácticos.

A barreira da língua – constantemente apontada como uma das causas do pouco interesse que brasileiros despertam no mundo - é uma balela. Guardiola, entre ser contratado pelo Bayern e assumir o comando do time, tornou-se fluente em alemão. A escola de treinadores portugueses, José Mourinho à frente, tem se espalhado pelo planeta, dirigindo clubes e seleções de primeira linha. É só uma questão de estudo – do idioma e da cultura. Depende apenas vontade de aprender.

Nesse cenário, não e por acaso que, nas seis maiores ligas europeias (Inglaterra, Espanha, Alemanha, França, Itália e Portugal) e na Liga dos Campeões, não há técnicos brasileiros. Um levantamento dos repórteres Daniel Mundim e Jorge Natan, do Globoesporte.com, mostrou que entre as seleções inscritas na Fifa, além de Tite, só há brasileiros no comando de Angola e Cambodja, enquanto os argentinos dirigem sete seleções – o mesmo número de espanhóis, por exemplo – e os portugueses cinco.

Mas, vamos voltar às declarações de Jair Ventura: “Hoje eu não posso trabalhar no exterior porque não tenho licença. E qualquer pessoa pode trabalhar no Brasil. Então isso não é legal. Estão tirando o espaço dos outros que querem trabalhar também”, completou o botafoguense.

Essa, talvez, seja a questão principal. Embora mantenha um curso de treinadores desde 2005, só agora, com a criação da Academy, a CBF decidiu investir de forma efetiva na formação e no licenciamento de profissionais da área. Coisa que a AFA já faz desde 1963 na Argentina. Nossos treinadores, em boa parte, são tão somente autodidatas, alguns ex-jogadores que levam para o banco a experiência dos gramados. Milton Mendes, do Vasco, é um dos poucos que têm, por exemplo, certificados de todos os cursos de treinador da Uefa. Nem é preciso tanto. Mas, no momento em que discutem a regulamentação da profissão – a lei Caio Junior – criando mecanismos de proteção inclusive para o troca-troca a que estão submetidos - nossos treinadores deveriam mobilizar-se por causas mais nobres, não para barrar estrangeiros, mas para poder, um dia, disputar em igualdade o mercado de bola.

Fonte: Luiz Fernando Gomes/Lance

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