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Demitido na quinta-feira da semana passada do cargo de treinador da equipe sub-20 do Flamengo, o técnico Gilmar Popoca disse que foi vítima de "trama estranha que preferia falar mais para frente". Na segunda-feira, ele recebeu a reportagem do GloboEsporte.com para falar de sua saída do clube e esclarecer a que se referia na semana passada.

Na entrevista ao GloboEsporte.com, Popoca afirmou que existe interferência direta na escalação do time do coordenador técnico Léo Inácio e revelou outros episódios. Para ele, indícios de sabotagem ao seu trabalho.

- Falei para o Noval quando ele me demitiu. "Vocês estão me fritando há um ano e meio". Ele disse que não era verdade. O Léo Inácio não falou nada na reunião. Mas... cumprimentei os três (Kadu Borges, coordenador da base, também estava na sala ao lado) peguei minhas coisas e fui embora - contou Popoca.

Ex-meia formado no Flamengo, com passagens São Paulo, Botafogo, Santos e seleções de base, o treinador de 53 anos foi demitido com a justificativa que estava fora da metodologia do clube. Ele estava no Flamengo desde 2009 e passou por todas as categorias até chegar ao sub-20, depois da saída de Zé Ricardo para o profissional.

Popoca disse que era comum interferência direta na escalação de time até ele chegar no sub-20. E contou que recebeu pedido - atribuído por Popoca a Léo Inácio - para substituir jogador na sua estreia - dia 27 de maio do ano passado, na derrota (2 a 1) para o Friburguense, em Nova Friburgo.

- Antes do intervalo, eles chegam para mim e dizem: "quero te comunicar uma coisa". Comunicar! Eu estava chegando e estava meio ... "Nós vamos ter que escalar um jogador. No segundo tempo vai sair o jogador X e vai entrar o jogador A." "Mas por que? ". "Porque está determinado". Como eu estava começando, falei OK. Mas prejudicou meu trabalho. Eu estava precisando ganhar o jogo e só tinha mais duas substituições - contou.

Diretor da base responde em nota oficial

Até a entrevista de Popoca ao GloboEsporte.com, o Flamengo só havia se pronunciado numa nota de cinco linhas em que agradecia os serviços prestados pelo ex-profissional do clube. Popoca citou diretamente Léo Inácio, Carlos Noval, diretor da base, e Kadu Borges. Disse que se sentia sabotado principalmente por Léo Inácio. Para o ex-treinador, Léo e Kadu faziam a cabeça de Noval.

O ex-lateral-esquerdo do Flamengo, conta Popoca, chegou a procurar jogadores do time sub-20 para mudar instrução anterior do técnico. E também filmou treinamento para mostrar à direção da base, de acordo com o relato de Popoca.

- Fui fritado desde o início - garantiu Popoca.
O GloboEsporte.com solicitou entrevistas à assessoria do Fla com o presidente e atual vice de futebol, Eduardo Bandeira de Mello. Além de declarações,a reportagem queria saber se as acusações de interferência poderiam abrir investigação interna no clube. Também pediu para ouvir o diretor Carlos Noval, os coordenadores Kadu Borges e Léo Inácio e Zé Ricardo, demitido do profissional e que era treinador quando, de acordo com Popoca, "Léo estava acostumado a escalar jogador" (leia a declaração mais abaixo).

Apenas Noval se pronunciou, através de nota oficial enviada na manhã desta sexta-feira pela assessoria de imprensa do Flamengo. A assessoria pessoal de Zé disse que o treinador, ainda sem emprego após deixar o Rubro-Negro, não ia se pronunciar. Leia a íntegra do que disse Noval.

"Gostaríamos de esclarecer que as acusações de interferência feitas por Gilmar Popoca com relação ao Leonardo Inácio, nosso Coordenador Técnico da categoria Sub-20, não procedem. As conversas sobre questões táticas da equipe fazem parte das muitas funções de um coordenador técnico, profissional que sempre visa ajudar no processo de formação dos atletas, e no Flamengo isso é realizado de forma natural em todas as categorias, sempre em comunhão com as comissões técnicas e com o aval da direção do futebol de base do clube.

Todas as decisões tomadas em todas as categorias, desde o pré-mirim aos juniores, são sempre debatidas em reuniões constantes pré e pós jogos, que contam com a presença de todos os membros da comissão técnica (coordenador técnico, treinador, auxiliar técnico, preparador físico, preparador de goleiros). Não há como existir nenhum tipo de interferência, porque as opiniões são debatidas em conjunto nessas reuniões, e as decisões são tomadas sempre de comum acordo. Elas nunca partem de apenas um lado ou são determinadas por uma só pessoa. Apesar do debate, a escolha final com relação à escalação da equipe é sempre unicamente do treinador.

Também é importante salientar que no evento citado por Gilmar Popoca (jogo Friburguense x Flamengo), o Leonardo Inácio estava acompanhando o treinador Zé Ricardo em seu processo de adaptação à equipe profissional, onde ficou durante dois meses, antes de retornar à sua função de Coordenador Técnico da categoria Sub-20. Ou seja, nem no estádio o Leonardo estava presente na ocasião citada."

O GloboEsporte.com procurou Popoca novamente sobre a citação a Léo Inácio e da ausência do coordenador naquele jogo em Nova Friburgo - por sinal, no intervalo, a troca foi do zagueiro André Baumer por Igor Candiota. O ex-treinador da base do Flamengo disse que a interação entre treinador e outros profissionais e coordenadores existia realmente. Mas que diminuiu e foi praticamente abolida depois que ele chegou ao sub-20.

- Não lembro se o Léo estava lá. Mas o que aconteceu é que recebi comunicado de que teria que colocar esse jogador - reafirmou Popoca.

A justificativa de que não estava dentro da metodologia do clube ainda revolta Popoca. Principalmente por que ele diz que não foi chamado para reunião piloto de "Plano Metodológico do Futebol", projeto apresentado no segundo semestre do ano passado - ele lembra também que não foi chamado para fazer mapa de avaliação do elenco.O treinador ainda lembra os elogios que recebeu recentemente, entre eles do diretor de futebol do profissional.

- Rodrigo Caetano me mandou mensagens quando classificamos na primeira fase, elogiando também a forma de jogar, e quando fomos eliminados - contou.

Após a demissão, ele recebeu ligações de atletas, pessoas de dentro e de fora do clube. Numa delas, Vinicius Junior, que treinou com ele desde o sub-13, agradeceu "a coragem de sempre".

- Como é que pode uma pessoa que está há sete anos e meio no clube nunca ter recebido um feedback de que estava errado? A base serve para formar, não tem obrigação de vencer, o que se torna consequência das competições, mas eu tinha resultados. Eu fugia da metologia e tinha resultados? Não conheço a metodologia do Fla depois de quase oito anos? É absurdo - diz Popoca.

O treinador lembrou que, além de Vinicius, participou da formação da geração 2000 - que ficou mais de 70 jogos invicto e tinha outros expoentes, como Wesley (lateral-direito) e Lincoln (atacante).

Confira outros temas da entrevista com Gilmar Popoca:

"Léo Inácio estava acostumado a escalar jogador"

"Antes de entrar em campo eu me reunia com o preparador físico, com membros da comissão técnica, com Valtinho (auxiliar) e Nielsen (preparador de goleiros), mas não com o Léo Inácio. Quando assumi a sub-20, que foi de desagrado dele, ele perdeu o poder. Ele estava acostumado, e a verdade tem que ser dita, a escalar. Falar 'tira', 'bota', sempre do gosto dele. Eu tirei esse poder dele. Quem escala é o treinador. Nunca favoreci ninguém."

Falta de material

"Fomos enfrentar o adversário mais forte do Rio, que era o Botafogo, que o sub-20 tinha perdido duas ou três vezes para eles, o Superclássico. Aí eles (equipe da base) tiveram a coragem de dizer que não tinha vídeo algum do Botafogo, que não podiam fazer nada. Como que o treinador vai ter leitura, noção de característica dos jogadores rivais? Eu só recebi o vídeo depois que reclamei."

Outra interferência em escalação

"Não foi só com um jogador que aconteceu isso. Houve outro caso também. O segundo teve menos pressão, mas também teve. Conversei depois com eles (jogadores impostos por Léo Inácio). Disse que eles estavam muito mal fisicamente e que precisavam evoluir, que a partir do momento que crescessem e estivessem no mesmo ritmo dos outros, com certeza avaliaria eles com carinho. Um deles, até está na Europa agora."

"Noval se deixou envolver pelo Léo e Kadu"

"Tinha muita consideração pelo Noval, mas ele se deixou envolver não só pelo Léo, mas pelo Kadu Borges, um cara que consegue manipulá-lo ali dentro. É uma confraria de amigos, eles influenciam muito tudo ali. Nas contratações também. Por não ser desse grupo, era massacrado dia a dia. O que me sustentava era que eu trabalhava muito, meus atletas confiavam em mim e tinha bons resultados e desempenho. O meu feedback era de adversários, treinadores de outras equipes."

Por que não falou antes?

"Eu me sentia muito sufocado. Mas é igual a namorada. Quando você começa, você quer estar junto todos os dias. Só que com o passar do tempo você que as coisas não são como você pensa. Eu vinha sofrendo tudo isso.

Eles até filmaram meu treinamento para tentar me expor. Isso é uma covardia. Por que não chegou para mim e disse "olha, isso aqui, esse treino não cabe". Não sou ignorante de ser o dono da verdade. Quando assumiu diziam que os zagueiros eram lentos, eram tachados assim. Provei que não, que se modificássemos a maneira deles jogarem, como eu fazia inclinando as linhas e fazendo cobertura, poderia ser diferente."

Direção do clube sabia dos episódios?

"Não acredito (que saibam dos problemas). Eu tive breve contato com o Luis Gustavo (que está como vice-presidente da base). Mas raríssimas vezes o vi no CT. Tanto que os relatórios passaram a ser enviados para o vice-presidente trimestralmente, foi o que me disseram. Fizemos Copinha excepcional, mesmo eliminados. Aí saí de férias. Mas acho que não era nem para o Gilmar ter voltado. Era para ter batido martelo ali, mas felizmente a Copinha me favoreceu."

Fora da reunião de metodologia

"Quando lançaram esse plano piloto, ano passado, chamaram o treinador da sub-11, sub-13, sub-15, sub-16... e eu, que sou o treinador da ponta da base, não fui chamado. Eles não justificaram. Disseram que esqueceram. O coordenador foi (Léo Inácio) e o preparador físico do sub-20 foram. Será que o diretor da base não pode perguntar por que não me convocaram? Depois eu fui buscar isso aqui (aponta para o material do plano piloto). Aí você vê o grau de covardia."

Espero que a torcida entenda. Nada contra o Flamengo, pelo amor de Deus. Preciso desabafar.

Instrução diferente no quarto do hotel

"Na Copa RS, no Rio Grande do Sul, aconteceu o seguinte. Eu não gosto de jogar em linha. Jogo com as linhas inclinadas, ou seja, o ataque é pela direita, inclina a linha para a esquerda. Eu jogo com cobertura. O futebol está muito rápido e se o cara consegue tirar o marcador, ele acha um passe entre as linhas e você toma gol. Porque nossos goleiros não estão habituados a jogar adiantados.

E eu conversei com eles isso na preleção um dia antes do jogo. Mas aí ele (Léo) foi até o quarto dos garotos lá e disse que jogassem em linha. Depois, os garotos vieram e me pediram desculpas. Disseram que o Léo gerou conflito na cabeça deles. Falei que estava tudo bem, mas que uma coisa que eu exigia deles era lealdade, independentemente de qualquer coisa."

Confrontou Léo Inácio?

"Quando sentiu que eu estava muito chateado, Léo me disse que queria falar comigo. Falei que não tinha nada para falar com ele. Depois nos cruzamos ao término do jogo (ganhamos de 4 a 1 do Santos), ele disse que queria falar. Respondi que não estava conseguindo nem olhar para a cara dele, tal a covardia, a traição. Com certeza, o diretor (Carlos Noval) soube disso e não tomou nenhuma providência.

No dia seguinte, ele me chamou, eu falei para ele: "você quer ouvir como homem tudo que tenho para te relatar?" Ele disse que sim. Falei tudo, de forma até enérgica. Ele não reagiu. Engoliu, porque sabia que estava errado. Vinha fazendo covardias, talvez com aval ou com vista grossa do Noval, do Kadu. Tudo era articulado para que eu não tivesse sucesso no Flamengo."

"Só é conhecedor de futebol hoje o cara que fala bonito?"

"Eu não sou obrigado a falar bonito, não preciso rebuscar minhas palavras. Eu fui treinado pelo Telê Santana. Sabe como ele arrumava time? Coletivo e fundamento. Lógico que as coisas mudaram, que não se faz mais coletivo de 1h30. Dou um coletivo por semana se der. Trabalho por setores.

O cara é estudioso e eu não sou? Qual ferramenta que eles usam para estudar? Internet? Eu tenho. Livros? Eu tenho, eu estudo. Jogos na TV? Eu vejo. Mas o que é de diferente que eles têm que não tenho."

Fonte: GE

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