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Em uma sala do terceiro andar do prédio da sede da CBF, a poucos metros da sala da presidência, está o escritório daquele que é visto como uma das principais peças da engrenagem da entidade. Homem de confiança de Marco Polo Del Nero há alguns anos, Rogério Caboclo é o diretor executivo de gestão. Mesmo avesso às entrevistas, ele recebeu a reportagem do LANCE! para falar sobre como tem sido a política interna em vários aspectos. 

- Nosso desafio é agir com cada vez mais transparência - disse ele, em uma longa conversa.

Caboclo, que foi diretor financeiro antes de ser promovido dentro do mandato de Del Nero, não abre o jogo só em relação ao dinheiro, mas também cita a relação com os clubes.

"Há altos índices de audiência e retorno financeiro. O Brasileiro é a competição mais rica do hemisfério sul".

O seu papel como diretor é imediatamente abaixo do presidente. Há a supervisão em todas as áreas da CBF, mas é claro que as diretorias têm autonomia para atuarem. De qualquer forma, está satisfeito com as competições organizadas pela CBF?
Walter Feldman e eu formamos, abaixo do presidente, um time que procura ter versatilidade para cuidar de várias áreas da CBF. A entidade é grande e tem atividades abrangentes. Eu me sinto confortável porque já participei da direção de clubes, Federação Paulista, Copa do Mundo e hoje estou na CBF. Temos um certo conforto para colaborar em diferentes áreas. A CBF responde muito bem às principais tarefas e talvez o segredo seja ter muito foco nas atividades fim: seleções, competições, arbitragem e registro e transferência. A CBF tem feito muito. De 2012 para cá, aumentamos de seis para 14 competições organizadas. A Série D teve um aumento de 70% de participantes, que era um anseio dos clubes e do público. Temos a Copa Verde, duas divisões do Brasileirão Feminino... As competições têm conselhos técnicos que têm soberania nas decisões. Sempre que se fala de formato, composição e regulamento, os clubes participam decisivamente. Em alguns momentos, proposições e deliberações surpreendentes para a CBF. É o exercício democrático para os clubes.

A relação com os clubes está boa? Há satisfação com o que é feito na CBF em termos de competições?
A avaliação não é da CBF. Nós percebemos que os clubes estão satisfeitos com as competições proporcionadas a eles, organizadas com isenção, qualidade e partidas que acontecem em dia e hora. Há altos índices de audiência e retorno financeiro. O Brasileiro é a competição mais rica do hemisfério sul. Temos que perceber que é das mais bem rentabilizadas, a despeito da diferença que temos na cotação cambial. Brasileiro e Copa do Brasil vivem com alta atratividade, por isso entendo que a condução é boa e assim os clubes têm dito para nós.

Por definição, sua função é decidir se a "torneira" de recursos se abre ou se fecha para determinados projetos. Qual tem sido a prioridade?
Uma das minhas missões, das mais ingratas, é ser responsável e ter um crivo duro em relação ao que é submetido à CBF. Vários projetos têm encontrado amparo. Temos implementado uma série de novas gestões. Em abril de 2015 teve a contratação da Ernst&Young para fazer o plano de modernização do futebol brasileiro. Em um alcance de 20 anos, foram projetadas ações para todas as áreas e isso já foi implementado em 80%. É um projeto de médio prazo. Tem o projeto de governança, riscos e conformidade, um dos mais importantes, que cuida dos regulamentos internos e externos, que passa a balizar o comportamento da entidade. Foram criados diretoria de governança, código de ética, canal de ética, reorganização estrutural, com definição clara de atribuições. Houve padronização das demonstrações financeiras das federações e isso vai ser passado aos clubes. Teve reforma estatutária, comitê de reformas... Agora é obrigatório fazer concorrência para contratação de serviços. Tudo o que a CBF devia praticar em termos de governança corporativa ela fez.

E o que falta desses 20% do que foi implementado?
Ajustes de sintonia fina de planos que estão em andamento. 

"Estamos trabalhando para baratear e queremos implantar a curto prazo", sobre o árbitro de vídeo

Sobre a organização das próximas competições, vai entrar em vigor o licenciamento de clubes. O quanto isso, na cabeça da CBF, vai mudar o futebol brasileiro?
Vai ser um projeto que vai ter condição de, a médio prazo, colocar o futebol brasileiro no mesmo padrão dos melhores centros europeus. A CBF vai conceder licenças para que os clubes possam disputar as competições nacionais. O projeto não visa excluir de competição, mas incluir em um critério de qualificação. Os clubes vão ter que melhorar em todos os sentidos: administração, jurídica, financeiro e estrutura. Eles vão estar à mercê de um julgamento da CBF e de uma comissão que vai analisar, ano a ano, no que o clube precisa melhorar.

E tem dinheiro para o árbitro de vídeo?
Sob o aspecto técnico, a gestão é 100% da comissão de arbitragem. Mas sob o aspecto administrativo, isso envolve vários departamentos da CBF. É uma decisão conjunta que tem que ser tomada. É altamente dispendiosa. O aparato tecnológico para fazer a cobertura do Brasil é quase igual ao da Europa inteira, às custas da CBF. Estamos trabalhando para baratear e queremos implantar a curto prazo. Existem duas questões: primeira é a conclusão da formatação técnica, aprovação e depois a gestão de custos. Como disse, é caro. Hoje, está em torno de R$ 12 milhões para uma competição. 

A CBF, desde o FifaGate, em 2015, perdeu patrocinadores, ganhou outros e hoje está com dez. No balanço da entidade, há de se reconhecer que a parte financeira não vai. Mas o quanto preocupa vocês essa diminuição dos patrocínios?
A partir de 2015, o Brasil entrou na maior recessão da história. O mercado publicitário também apresentou quedas significativas em todos os seguimentos. A Seleção deixou de ter alguns patrocinadores e passou a ter outros. Não houve uma perda financeira para a CBF. É muito mais do que servir à Seleção. O patrocinador serve ao futebol brasileiro. No balanço patrimonial, ficou mais clara a injeção financeira que a CBF faz no futebol brasileiro. A CBF, de forma direta, gasta quase R$ 300 milhões no fomento do futebol. De foma indireta, mais de R$ 400 milhões. Os patrocinadores da Seleção, mais do que responder ao papel junto à Seleção, sustentam o futebol brasileiro, como um todo. É importante dizer que a CBF não recebe nenhum centavo da Série A, não ganha percentual sobre a bilheteria e direitos de transmissão, embora tenha custo para organizar. Mas custeia integralmente as Séries C e D e o campeonato feminino, entre outras competições.

"A Seleção deixou de ter alguns patrocinadores e passou a ter outros. Não houve uma perda financeira para a CBF".
Mas o superávit está menor do que em outros anos...
Quando fazemos uma análise do superávit vemos por outro lado: a CBF tem obrigação de desenvolver o futebol brasileiro, as competições, investir em qualificação. O aumento de investimento no futebol, na veia, é que tem espaço. A CBF instituiu seguro de vida para atletas, treinadores, árbitros e o seguro saúde dos campeões mundias pelo Brasil. A CBF recolheu R$ 104 milhões em impostos. Apesar de ter uma formatação sem fins lucrativos, a prática é de uma empresa. Eu cito a CBF Social, que é bonito de ver e conhecer os resultados. 

Você participou recentemente de reuniões em Brasília sobre o Profut. O que exatamente aconteceu? Qual o objetivo da CBF com essa campanha junto aos deputados para alteração na Lei aprovada em 2015?
Fundamentalmente, o objetivo da CBF é fazer com que o Brasileiro e as competições nacionais transcorram de forma regular. Sem sobressaltos, que não precisam acontecer. À medida em que em algum momento foi inserida entre os critérios técnicos das competições a exigência de certidões, acabamos tirando o futebol do âmbito das quatro linhas, onde ele deve ser resolvido, conduzindo-o para outras instâncias. O objetivo da CBF não é nem se furtar do recolhimento tributário e nem que os clubes o façam. O interesse da CBF é que exista estabilidade jurídica para que as competições se desenrolem ao longo do calendário. Que o critério técnico, como vem da estrutura internacional do futebol, seja a definição a partir dos resultados alcançados em campo. A questão tributária é um campo em que tanto governo quanto clubes estão aparelhados para discutir no âmbito dos tribunais e do Conselho de Contribuintes. Existe uma diferença entre o entendimento do clube entre a isenção tributária que ele sustenta ser detentor e a atuação de agentes fiscais, que entendem de forma diferente. Neste intervalo fica um impasse que pode comprometer a realização das competições de forma regular. 

Propor o fim da exigência da CND não seria afrouxar demais o Profut, dando uma "carta de alforria" aos clubes?
Acredito que não, pelo seguinte: Existem dois pontos para chegarmos a uma conclusão. O primeiro deles é que a lei estabeleceu esse tipo de rigor para os que aderiram ao parcelamento e, por isso, receberam algum benefício e também para os que não aderiram, de forma indistinta. A segunda questão é que não há paralelo no mercado brasileiro e internacional de empresas que ficam inibidas de sua atividade e, portanto, de suas receitas, que geram empregos e contribuem para a produtividade, em razão de dúvidas sobre a quitação de tributos. A atividade fim ficaria comprometida. Se fala para um clube que ele vai cair de divisão, isso significa um impacto de milhões de receitas.

Tem havido conversas sobre isso com o ministro do Esporte, além daquela reunião com o Rodrigo Maia? Afinal, essa mudança no texto do Profut afetaria a atuação da APFut...
E nenhum momento a CBF propõe alterações no papel da APFut, mas a aplicação da lei nas competições que organiza. O sistema pode ficar comprometido na medida que há uma incerteza de quais clubes vão estar credenciados para o ano seguinte ou não. Um clube pode ficar nas primeiras posições e ser rebaixado no ano seguinte, fora das regras desportivas.

Fonte: Lance

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