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Inevitável o clima de fim de festa. As chances de título passaram a ser matemáticas e o cheirinho de hepta se foi sem deixar rastro. Inevitáveis também são os debates a respeito das causas para a queda de rendimento do time e quais as soluções possíveis a curto prazo para ao menos garantir um início de 2017 sem sustos, na Libertadores da América já na fase de grupos. O tema tem importância estratégica: se o Flamengo sair do G3 (ou G4 a depender de quem for o campeão da Copa do Brasil e a composição do G3), disputará a temida “Pré-Libertadores”, que antecede a fase de grupos. Além de correr o risco de enfrentar adversários difíceis e tradicionais da América Latina ou do próprio Brasil, não se classificar diretamente para a fase de grupos forçaria necessariamente a aceleração do processo de formação do elenco e pré-temporada.
Pela empolgação da torcida por todo o país, a perda das chances reais de título faltando quatro rodadas para o fim do Brasileiro/2016 é muito frustrante e sobretudo triste, mas o momento é da Comissão Técnica e o elenco encontrarem forças para racionalmente tornar 2017 menos complicado do que pode vir a ser.
As opiniões sobre as causas da queda de rendimento do time se dividem entre o trabalho tático do treinador e a qualidade do elenco, passando ainda pelo desgaste físico decorrente da multiplicidade de viagens para mandar jogos do Campeonato Brasileiro e da Copa Sul-Americana em diferentes estados do país, notoriamente de proporções continentais. Não vejo como adotar posturas extremas nessa análise, pois na verdade todos esses problemas se somam, cada qual em sua proporção. Já que não temos um parâmetro objetivo e preciso para dimensionar qual dessas causas prevalece, podemos ao menos identificar dentre elas as que podem ser trabalhadas nessas quatro últimas rodadas.
Levando em consideração o ponto a que chegou a estrutura do Departamento de Futebol profissional em 2016, acredito sinceramente que a preparação física e fisiológica dos atletas está em boas mãos, na medida do possível, em especial nessa “mini-temporada” até o jogo contra o América/MG. Mas e o trabalho do treinador?
Zé Ricardo recebeu o elenco do Flamengo com uma proposta tática abstratamente concebida, mas na prática longe de ser executada com a regularidade e a eficiência desejadas pela torcida, Diretoria e por seu antecessor Muricy Ramalho. Os triunfos sobre a Ponte Preta em Campinas e o Vitória em Volta Redonda trouxeram um alento que logo cedeu espaço para preocupações com a zaga a partir das derrotas para o Palmeiras em Brasília e Figueirense em Florianópolis. Um detalhe relevante não deve passar desapercebido: as coisas pareceram melhorar a partir da vitória sobre o Cruzeiro em Belo Horizonte e formação da melhor dupla de zaga do clube na década com os recém-chegados Réver (que estreou no Mineirão) e Rafael Vaz, além da titularidade de Muralha (a partir de contusão do então titular Paulo Victor), que deram consistência defensiva inédita ao time em muitos anos. Registre-se que foi opção do treinador a escolha do primeiro volante, já que o antecessor escalava o colombiano Gustavo Cuéllar, o qual, contudo, sob o comando do atual treinador não teve a oportunidade de disputar posição jogando ao lado dos reforços.
Zé Ricardo treinou o time por dois meses disputando apenas o Campeonato Brasileiro, oportunidade que seu antecessor não teve, e contou ainda com os reforços. Nesse ínterim, em que pese alguns percalços como os 2×4 para o Figueirense em Florianópolis e a goleada para o Corinthians no Itaquerão, o time talvez tenha atingido o auge tático e técnico, tendo por bom exemplo a vitória sobre o Figueirense no Pacaembu, quando desceu para o intervalo com espetaculares 85% (oitenta e cinco) por cento de posse de bola, proporção rara no nivelado campeonato brasileiro da Série A. Em nível de competitividade, eu destaco a partida contra o Palmeiras no Allianz Parque, não vencida por conta da expulsão de Márcio Araújo e o capricho de Alan Patrick em um lance no segundo tempo. Acredito que esses números sejam mérito do nosso jovem treinador, que então surpreendia-nos tod@s com substituições que pareciam não fazer sentido, mas que sempre davam certo. Foi-lhe atribuída a qualidade de “ler bem o jogo”.
Passaram-se mais algumas rodadas e, com o time “manjado” pelos treinadores adversários, vieram os tropeços, alguns deles incômodos – eliminação da Copa Sul-Americana com mando de campo e resultado favorável no jogo de ida, para o Palestino do Chile; empate com o então quase na zona de rebaixamento São Paulo, no Morumbi; derrota para o também quase rebaixado Internacional, em Porto Alegre, e o empate com o Corinthians em má-fase no Maracanã. Os dois empates seguintes, no Mineirão contra o Atlético/MG, segundo melhor mandante do campeonato, e contra o Botafogo, segunda melhor campanha do segundo turno, têm o gosto amargo das oportunidades perdidas de se aproximar do líder Palmeiras, mas talvez não fossem tão sentidos, dada a qualidade dos adversários, se os tropeços anteriores não houvessem acontecido.
Como a serpente que tenta engolir a própria cauda, não sei aonde começa e termina o problema tático que o time do Flamengo vive atualmente. Para ter consistência defensiva, precisa de pontas ou meias que joguem pelas pontas e marquem como laterais; como os laterais não se posicionam corretamente na primeira linha e têm cedido espaços, o primeiro volante escolhido pelo treinador é um velocista cuja especialidade é a cobertura das laterais, mas em compensação cede espaços para fazer essa cobertura, é fraquíssimo no combate direto (fraco no desarme) e péssimo na saída de bola porque não tem o fundamento do passe. O 4-2-3-1 de Zé Ricardo exige do segundo volante, Willian Arão, maior comprometimento defensivo, e com isso Diego joga como único meia, sacrificado, enquanto os pontas jogam abertos e isolam Guerrero no ataque. A fórmula até funciona por um período, como o primeiro tempo contra o Atlético/MG no Mineirão, mas a exemplo do que ocorreu nessa mesma partida e contra o Internacional, em Porto Alegre, além de ser pouco efetiva em número de gols marcados, no segundo tempo o time fenece sem que o treinador consiga conter a estratégia adversária.
Na minha opinião (com a qual ninguém precisa concordar), o problema tático reflete a dificuldade do jovem e inexperiente treinador em lidar com os próprios conceitos, antes de refletir limitações do elenco ou desgaste físico pela exauriente e particular temporada longe do Maracanã. No próprio elenco há peças, como Mancuello e Cuéllar, que poderiam ser mais usadas, e não necessariamente como titulares (entrando no segundo tempo, por exemplo), mas Zé Ricardo perde-se na mesmice e se fossiliza num mesmo formato tático.
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer. Zé Ricardo tem a chance de ouro de começar a carreira no clube de maior torcida do mundo. As próximas quatro rodadas podem fazer toda a diferença para a qualidade do seu 2017 no Flamengo.
Bom dia e SRN a tod@s.
Gustavo Brasília
Fonte: Buteco do Flamengo
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