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Diante de uma crise de imagem da arbitragem brasileira, entre ações na Justiça Desportiva, erros e reclamações em profusão, o novo chefe da comissão de arbitragem da CBF, Marcos Marinho, ou Coronel Marinho, como é conhecido, não hesita em dizer que a falta de uniformidade nos critérios é a causa dos problemas. Sobre o Fla-Flu sub júdice, o asterisco na tabela do Campeonato Brasileiro, ele é incisivo. Admite que houve erro de Sandro Meira Ricci, ao demorar para tomar uma decisão, e do assistente Emerson Augusto de Carvalho, que titubeou em sua marcação inicial e, para Marinho, gerou toda a polêmica. Ele também não alivia o inspetor de arbitragem da CBF, Sérgio Santos, que afirma não ter de se aproximar do árbitro, e explica a sua visão do que aconteceu no gramado em Volta Redonda.

O Coronel Marinho garantiu que haverá uma punição da comissão de arbitragem da CBF para os envolvidos no caso, mas avisou que isso só será decidido após o julgamento da ação impetrada pelo Fluminense no Superior Tribunal de Justiça Desportiva (STJD) pedindo a anulação da partida por interferência externa na decisão de Ricci sobre o seu segundo gol - que seria o de empate - na partida. Ele prometeu ainda inovações para 2017, como uma análise imediata da partida a ser enviada aos árbitros já com imagens dos lances e observações.

- Você ensina aos assistentes, aos árbitros, para sempre marcar o que viu primeiro. Se começar a pensar no lance, vai começar a errar. Certo ou errado, é o que viu. O Emerson quis fazer uma justiça, "se eu errei tenho de voltar atrás", isso bateu na cabeça dele. Mas na sequência ele foi na primeira visão, no impedimento. Ele quis tentar fazer justiça, e acabou prejudicando toda uma situação - disse Marinho.

Confira a íntegra da entrevista de Marcos Marinho ao GloboEsporte.com:
GloboEsporte.com: O que de fato foi relatado à comissão? Qual foi o papel do segundo assistente na confusão no Fla-Flu?

Marcos Marinho: - Houve uma conversa entre eles em razão das dúvidas lá na hora, eles discutindo. O Emerson que suscitou que ele visse de novo o caso, aquele negócio do feeling do assistente, aquele primeiro lance que ficou a fotografia para ele. Teve uma dúvida, na hora que o Henrique foi reclamar de forma muito forte, pintou uma dúvida na cabeça dele. Aquele diálogo que ele teve com o Sandro Meira Ricci, aquela coisa toda. Mas ele quis voltar atrás, "vou ficar na minha primeira posição que é o impedimento". Aí o (Marcelo) Van Grasse, que é o segundo assistente e também é muito experiente, falou: "Emerson, fica com a sua primeira impressão, a primeira posição. A primeira decisão é a que tem de ficar". É a correta sempre, para nós. Você ensina aos assistentes, aos árbitros, para sempre marcar o que viu primeiro. Se começar a pensar no lance, vai começar a errar. Certo ou errado, é o que viu. O Emerson quis fazer uma justiça, "se eu errei tenho de voltar atrás", isso bateu na cabeça dele. Mas na sequência ele foi na primeira visão, no impedimento. Ele quis tentar fazer justiça, e acabou prejudicando toda uma situação.

Há uma grande diferença  entre o que foi relatado pelo Sandro Meira Ricci na súmula e o que foi mostrado na leitura labial das imagens do inspetor da CBF...


- Pensa uma coisa, primeiro que esse inspetor ou delegado não tem nenhuma ligação com ninguém. Não existe uma quinta pessoa na arquibancada, em uma sala escondida, não existe esse tipo de comunicação. Teria de ter esse canal aberto com o inspetor para passar uma informação, não existe isso. Todo mundo lá no campo estava escutando que "a televisão deu isso". Então já tinha jogador falando, já tinha um monte de gente falando no ouvido dos caras. Não foi um inspetor que chegou e "fulano de tal me disse isso". Não existe isso, não existe um canal de uma pessoa fora do campo. Se o inspetor falou alguma coisa, é porque estava ouvindo todo mundo comentar isso aí. O árbitro não vai da cabeça do inspetor, de ninguém, vai da cabeça dele. Aí que o Van Grasse orientou: "Emerson, marca o que você viu primeiro".

É normal a presença do inspetor da CBF, encarregado de avaliar a atuação, no campo de jogo?


- Não, não é normal, não deve entrar, não deve ficar encostando no árbitro. Até porque gera toda essa porcaria de dúvida e de polêmica. Eles não aprendem. Não é para ficar perto de árbitro, deixa o árbitro decidir, o problema é do árbitro.

Depois de tudo o que aconteceu, não pega mal o Sandro Meira Ricci relatar na súmula que não houve nada de anormal?
- Para a arbitragem, interessa erro de procedimento. Durante a partida, não é essa medida que eles têm de adotar. O trabalho do Emerson não foi bom, ele sabe disso, é uma pessoa experiente. Conversei com ele no dia seguinte, orientei: "Emerson, você é um árbitro Fifa, experiente, não deveria ter feito o que fez. Gerou uma série de problemas para todo mundo. E a desconfiança era natural. Você realmente pisou na bola". E um erro do Sandro para mim é que a decisão tem de ser rápida. Não tem de ficar conversando com esse ou aquele. Isso é falta de planejamento de vestiário, tem de definir tudo. Por exemplo, falhou a comunicação? É no olhar, no gesto, mas a coisa tem de ser rápida para não dar margem a qualquer tipo de comentário. Ainda mais hoje com essa tecnologia que está em volta...

Mas então, em 13 minutos de confusão, ele dizer que não houve nada de anormal... Para o torcedor que lê isso...
- Ele retificou, fez um adendo no dia seguinte. Até porque era necessário. E você pode fazer adendos no seu relatório, em razão de fatos que possam ter surgido que você esqueceu ou não observou. Nada contra isso.

Como fica a situação deles agora para voltar a apitar? Podem aparecer no Brasileiro neste ano ainda?
- Preliminarmente, não podem atuar porque estão sub júdice. Hoje o STJD está apurando e vai julgar a situação. Não sei se poderá ou não ser aplicada uma pena a eles. E pode também ser aplicada uma sanção. É fato notório que houve erros de procedimentos. Existem umas coisas que foram erradas, fugiram da conformidade. Aí vamos tomar nossas medidas aqui também, que vai de advertência, reciclagem na Escola Nacional de Árbitros, pode ser suspenso por um determinado número de rodadas ou até de dias. A vida pregressa conta.

Essa decisão de punição pela comissão de arbitragem já foi tomada?
- Preliminarmente, não podem atuar até que haja uma decisão da Justiça. Depois da Justiça, vamos adotar a nossa linha aqui. Mas houve erro de procedimento e teremos de adotar uma sanção, pode ter certeza.

Para o ano que vem, o que pode ser feito para mudar esse quadro de desconfiança da arbitragem?
- Estamos fazendo um diagnóstico para saber o que não está funcionando. Existe uma série de cursos de aprimoramento, programas de treinamento, o que vejo aqui é que tudo o que se falou, que se passou de orientação, não está sendo bem interpretado no campo de jogo. Excesso de informações na cabeça do árbitro, que não assimilou ainda o que se quer da arbitragem. Ainda há dificuldades, esses conceitos novos de mão na bola, bola na mão, ainda não estão fixados na cabeça do árbitro, que vem de uma formação diferente. Bagunça o discernimento dos árbitros, porque é uma coisa muito rápida. Esse processo tem de ser imediato na sua consciência, de forma bem clara. Quando fotografou aquela imagem, tem de tomar a decisão. Como são conceitos novos, a assimilação não está perfeita. Há dúvidas. Mão na bola, bola na mão, o cara que sobe com o braço aberto e pega na cabeça do outro, é pra dar cartão? Enfim, é tanta coisa na cabeça que estão ainda naquela fase de assimilar isso. 

Então a crise da arbitragem hoje é em função desse problema de assimilação de novos conceitos?
- Algumas coisas não estão sendo processadas de forma correta na hora que vê o lance. E aí você tem falta de uniformidade dos critérios. Estamos pagando um preço dessa transição de novos conceitos da interpretação da regra de jogo. Até na parte disciplinar. Precisamos retomar algumas coisas, o processo de ensino talvez tenha de ser analisado, aplicar com calma, com tempo para isso. Estamos fazendo um diagnóstico para depois adotar um programa diferente. Existe muita coisa aqui na comissão. Vamos montar uma central de análise de todos os jogos, do que se errou, do que foi positivo, e mandar de imediato para o árbitro. Isso está faltando, a informação imediata. Depois de 24h, no máximo 48h, estará recebendo. Com vídeo, questões táticas, disciplinares, técnicas, uma série de itens que estamos avaliando que vamos passar com as observações necessárias de correção.

Isso já de imediato ou para o ano que vem?
- Essa parte com vídeo está em andamento, mas vamos montar com o pessoal mesmo para no ano que vem estar implantado. Até para acompanhar os campeonatos regionais também. Os árbitros do quadro da CBF e promessas.

Mas vocês vão mandar esse tipo de relatório para árbitros que não estão no quadro da CBF também?
- A princípio não, com certeza vamos enviar para o presidente da comissão de arbitragem da região.

Haverá alteração na questão de sorteio e escalas?
- Estamos buscando uma fórmula mais ideal. Estamos testando um modelo, uma outra fórmula, tem correspondido. Mas nada é definitivo, estamos pensando ainda em uma melhor fórmula que atenda todo mundo. Os árbitros, que precisam de uma continuidade no trabalho, os clubes, que precisam que sejam escalados os melhores, e que se obedeça a legislação que determina o sorteio. A gente tem de melhorar a qualificação desses árbitros. Enquanto não tiver menos erros e uma uniformidade de atuação dos árbitros... É terrível isso. Temos de diminuir essas reclamações, chegar em uma uniformidade, o critério tem de ser o mais afinado possível, para não ter reclamações que algumas vezes são procedentes pela falta de critério da arbitragem. O árbitro dá cartão vermelho no domingo passado, no domingo que vem, no mesmo tipo de lance, não dá nem amarelo. Alguns assimilam de forma correta, alguns não, é isso que a gente está vendo, árbitros com atitudes diferentes. Erros por limitações humanas, compreendemos.

Fonte: GE

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