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O escorregão provocado pelo gramado molhado do Maracanã deixou uma marca não só no joelho, como também na vida e na carreira de Rômulo. Sozinho, logo após um casual domínio de bola, o volante - que havia sido titular em grande parte da arrancada heroica no Flamengo no Brasileirão de 2007 - rompeu o ligamento cruzado do joelho direito na vitória do clube por 2 a 1 sobre o Vasco, no chuvoso dia 18 de outubro daquele ano.

Um fatídico lance que tirou o gaúcho dos gramados por seis meses e mudou para sempre os rumos da carreira do jovem de até então 20 anos. Afinal, ele jamais conseguiu retomar o espaço no Fla e muito menos repetir as atuações que encantaram Joel Santana, técnico responsável por "apadrinhá-lo" e lançá-lo ao time titular naquele momento. Tanto é que, agora, aos 29 anos de idade e depois de passar por alguns clubes de menor expressão, Rômulo anuncia que a trajetória nos gramados oficialmente chega ao fim.

- Eu acredito que todas as coisas têm um tempo determinado. Infelizmente, tive uma lesão no meu auge, quando estava muito bem. Acabei criando uma expectativa como qualquer menino, que sonha jogar num Flamengo, num Real Madrid. Mas é a vida. Eu não tenho nada do que reclamar, do que falar. Você está sujeito aos percalços na vida, e eu acabei me machucando. Mas eu acredito que não tenho que me cobrar, não perdi para mim mesmo. Não tem como falar que a culpa foi de A, B, C ou D. Drogas, bebidas, noite, nunca tive esses problemas. Tive o que qualquer profissional corre o risco, acabei tendo as lesões - disse ele, que não joga desde 2015, quando vestiu a camisa do Brasiliense.

A história de Rômulo Noronha no Flamengo começou aos 13 anos de idade. O volante deixou a cidade natal, Caxias do Sul, e ficou no clube por sete anos até receber a primeira oportunidade no time de cima. Na base, foi capitão em quase todas as categorias, colecionou uma porção de títulos e chegou, inclusive, à seleção brasileira sub-20. No entanto, quando atingiu o limite de idade para atuar nos juniores e foi tomado pela expectativa de subir aos profissionais, encarou de frente a incerteza. Encostado e treinando separadamente, quase foi parar no Tupi, até então na Série C. Rejeitou o empréstimo e viu a sorte mudar só depois da chegada de um velho conhecido do futebol carioca em meados de 2007: Joel Santana.

Com o Flamengo na zona de rebaixamento do Brasileiro, Joel promoveu diversas mudanças na equipe e enxergou em Rômulo o potencial para ser um novo "xodó". O volante, com 20 anos na época, conquistou rapidamente a confiança do treinador e não demorou a ganhar espaço. Fez a estreia no dia 11 de agosto na vitória por 2 a 1 sobre o Náutico, no Maracanã, e agradou. No total, participou de 17 jogos seguidos na campanha que tirou o clube da zona de rebaixamento e levou à Libertadores. Ibson, Fábio Luciano, Kleberson e Léo Moura, por exemplo, estavam naquele time.

- O que eu sempre tenho que ter é gratidão, um valor eterno (ao Joel). Naquela época, eu estava passando um por um momento meio que pisoteado. Eu estava estourando a minha idade de juniores, tinha acabado de ser convocado para a seleção sub-20. Fui o único do Flamengo a ter ido. Mas aí o Flamengo queria me emprestar para o Tupi, na Série C. Fiz a escolha de ficar, mesmo treinando separado, com muita força de vontade. Eu me preparei, vinha treinando para que alguém reconhecesse e, nisso, apareceu o Joel na minha vida. Eu estava forte, rápido, preparado. O Flamengo estava numa fase de transição, e ele confiou em mim, mesmo na época com 20 anos. Sempre me tratou com carinho, apostou em mim, e pude retribuir até infelizmente acontecer a lesão. Até voltei para jogar com ele, mas já era uma coisa acima de mim, não conseguia render da mesma maneira - contou Rômulo.

A sequência de Rômulo no time titular do Flamengo durou até a lesão diante do Vasco - na ocasião, saiu antes dos 10 minutos para a entrada do volante argentino Hugo Colace. Após a partida, no vestiário, diversos atletas e o próprio técnico Joel Santana se comoveram com o drama do jovem, que perdeu todo o restante daquela temporada. Informado sobre a aposentadoria de Rômulo, Joel encheu o agora ex-jogador de elogios e lamentou o fim precoce.

- (Tenho uma) Lembrança muito boa, um jogador altamente profissional. Tanto que eu apostei nele e tive muito sucesso, foi muito bem. Sempre que eu precisei dele num jogo, tive retorno, mas, infelizmente, teve uma contusão num jogo que eu não me lembro. Mas era um jogador que me ajudava muito. Tenho que ter gratidão e continuar torcendo para o sucesso dele. Espero que seja feliz. É uma pena. Parece que foi ontem, ele era novinho, novinho. É uma pena mesmo, infelizmente - recordou Joel.

Gratidão ao Fla e "realizado"
Recuperado da cirurgia no joelho direito, Rômulo acabou emprestado pelo Flamengo ao Paraná no ano de 2008. Em 2009, retornou e fez parte do grupo que faturou o título do Campeonato Brasileiro - chegou a ser titular em um jogo, na derrota para o Avaí. No ano seguinte, chegou até a ser utilizado nos confrontos diante do Corinthians pelas oitavas de final da Copa Libertadores e foi o incumbido de marcar Ronaldo Fenômeno. A partir daí, sem conseguir sequência, alternou empréstimos para Atlético-GO e ABC e deixou o Rubro-Negro de forma definitiva em 2013. Passou ainda por Boavista em 2013 e 2014 antes de vestir a camisa do Brasiliense, seu último clube.

Apesar do fim de carreira precoce e sem conseguir o sucesso que parecia possível com início promissor no time principal do Flamengo, Rômulo agradece e recorda o longo período vivido pelo time da Gávea.

- Ah, foram muitas alegrias. Sonhos que foram realizados, como eu tive naquela reta final de 2007, com um grande treinador, jogando com grandes jogadores. Anos atrás eu estava morando lá no Rio Grande do Sul, aí você aparece jogando num Maracanã, com grandes jogadores. No meu primeiro jogo como profissional, entrei num jogo com 80 e poucas mil pessoas. Essas coisas aí que marcam, foi um sonho realizado ter passado no Flamengo. Foi um momento mágico que eu vivi. Grandes jogadores, grandes alegrias. Por mais discreto que seja, você acaba entrando na história de um grande clube. Quando você passa no calçadão lá, tem meu meu nome. Se você parar para pensar, muitos jogadores queriam ter essa oportunidade. Tava até conversando com o Paulo Victor, que é um muito amigo meu, sempre estamos juntos, quantos passaram até hoje lá? Passou muita gente, e temos que agradecer a Deus. Foi muito mais do que eu imaginava, foi um momento maravilhoso.

Nova vida 
Morador do Recreio, na Zona Oeste do Rio de Janeiro, Rômulo, agora, tem apostado suas fichas em novas profissões. Além de investir na construção cívil, tem intermediado a negociação de atletas de futebol. A intenção, segundo ele, é brevemente começar a agenciar a carreira de jogadores.

- Eu, profissionalmente, por tudo que eu passei, encaro tudo na minha vida como o Plano A. Ponho o foco em cima de uma coisa. Eu tenho o foco no agenciamento, de cuidar da carreira de jogadores, até porque me deixa muito triste quando algum amigo vem me pedir para colocar alguém num clube, tentar uma ajuda. Infelizmente, têm vários talentos melhores que eu que já passaram. Mas o que me fez foi a minha força de vontade. As pessoas sempre falavam "você tem que ter um padrinho, isso, aquilo", mas, quando você está pronto, está bem, quando sua estrela brilha, não sei se me entende, as coisas começam a fluir. Eu ainda me vejo ajudando muitos, ajudar a conseguirem uma vida melhor, uma carreira estável. Então é usar a minha experiência, que é muito importante no agenciamento de um jogador. Sobre a construção, já é algo da minha família, do que me pai que já fazia, nada anormal para mim.

Fonte: GE

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